quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Educação Musical em ONG’s e projetos sociais


O espaço das ONGs é essencialmente um espaço de trocas cooperativas, pois elas surgiram com o propósito de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Com o crescente surgimento de ONGs e projetos sociais, desencadeiam-se novas formas e maneiras de trabalhar a educação musical nestes ambientes. Compreender de que modo os processos de musicalização coletiva podem contribuir para o desenvolvimento musical, das relações interpessoais cooperativas e inclusão social dos agentes envolvidos nestes ambientes é também um modo de legitimar o espaço da Educação Musical em contextos informais.
As pessoas que implantam a educação musical em contextos de projetos sociais têm, além da tarefa de desenvolver a musicalidade dos indivíduos, a de gerar formas de recuperar ações educativas e culturais, aprimorando a capacidade destes indivíduos de atuar de modo autônomo na sociedade, pois além do foco em questões de ordem social, jurídica, econômica e cultural, o ambiente das ONGs tem a ver com a dimensão ética.


Através de uma pesquisa bibliográfica, Santos (2006) propõe que a crescente proliferação dos projetos sociais em educação musical em nosso país, nas últimas décadas, tem suscitado novas buscas, reflexões, caminhos e possibilidades para o ensino e aprendizagem da música neste contexto:
Concluímos então, que para o educador musical atuar nos projetos sociais ou nos demais contextos não-formais de ensino, irá necessitar além de uma formação consistente, uma estratégia adequada para seu trabalho junto às comunidades, com vistas a desenvolver um ensino vivo e criativo. Ensino esse que valorize os conteúdos e sua sistemática, mas também a espontaneidade, a crítica e os valores informais, que saiba lidar tanto com o que é planejado, quanto com o que é inesperado, e, enfim, que saiba adequar consciente e consistentemente seu ensino a cada espaço educativo tendo em vista as distintas particularidades e realidades (...) Enfim, tendo em vista a atual realidade educativa, cultural e política de nosso país, consideramos relevante a iniciativa de propostas e ações que transcendem os limites do contexto escolar, contribuindo, dessa forma, para a recuperação da ação educativa e cultural dos indivíduos, tornando-os cidadãos críticos e participativos na sociedade. Nessa direção, os projetos sociais em música, quando desenvolvidos de forma contextualizada com a realidade social de seu público, podem ser considerados como um importante veículo educativo-musical, visto que tem alcançado significativos resultados musicais e socioculturais junto às comunidades e indivíduos que deles participam (SANTOS, 2006, p. 5).


A música não é somente uma produção lógica, mas também, simbólica, isto é, expressa sentimentos, ideais, valores culturalmente construídos, formas de encarar o mundo simbolicamente. Apontamos para o desenvolvimento musical não como uma evolução moldada por regulações impostas do exterior, mesmo que as formas de interações sociais sejam determinantes no processo de musicalização, mas como um mecanismo de equilibrações mentais em patamares superiores, relacionados ao conjunto de desenvolvimento anterior de cada sujeito.
Certas interações sociais desencadeiam processos de construção de conhecimento, pois o indivíduo, ao coordenar suas ações sobre o real com as de outrem, elabora novas organizações cognitivas. Com base nisto, pensamos que os indivíduos envolvidos em processos de musicalização no ambiente de ONGs podem resgatar valores especiais como a justiça baseada na igualdade e na solidariedade, na medida em que estes espaços visam ao desenvolvimento de relações interpessoais que os indivíduos estabelecem com a suas comunidades e com a sociedade, tornando-os cidadão críticos e participativos, portanto, autônomos. Essa hipótese é gerada a partir da revisão teórica sobre as proposições de autores que pesquisaram o ambiente da Educação Musical no contexto de projetos sociais. Lima (2002), ao relatar o Projeto Música & Cidadania, menciona que a musicalização neste espaço é tratada como “foco de identidade entre as crianças e adolescentes” (p. 22) da comunidade aonde o projeto foi realizado. Portanto, este projeto ligado à ONG CEAFIS (Centro de Apoio à Formação Integral do Ser) localizada na periferia da Grande Florianópolis tem a ver com os processos de ensino e aprendizagem musical neste contexto específico e a análise sobre os significados e repercussões disto na prática da comunidade. Também Kleber (2008) explica que foi possível verificar nos ambientes aonde realizou sua pesquisa, duas ONG’s, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo, que o relacionamento interpessoal é influenciado, não apenas pelas trocas realizadas, mas também pelo contexto geográfico aonde estas ONGs funcionam. Santos (2006a) complementa propondo que a educação musical tem tomado dimensões cada vez mais significativas na sociedade e deve ser estudada de acordo com a realidade cultural de cada indivíduo, valorizando, assim, as múltiplas realidades, contextos e características existentes.
Com base na revisão desses trabalhos, deve-se considerar a multiplicidade dos contextos de musicalização em projetos sociais. Para isso, é preciso refletir mais sobre o assunto, atentando para um fato proposto por Kleber (2008):

As implicações para o campo epistemológico da educação musical incidem em uma visão que reconheça que a produção do conhecimento pedagógico-musical deve considerar múltiplos contextos da realidade social, dissolvendo categorias hierárquicas de valores culturais. Para tanto, é preciso refletir sobre as categorias dominantes de mérito artístico e pedagógico, questionando e problematizando, borrando o limite das estruturas de avaliações e julgamento de práticas musicais. Faz-se necessário, também, reexaminar as relações entre o conhecimento da cultura popular e conhecimento estabelecido pela academia, como já tem sido proposto pela área de educação musical (KLEBER, 2008, p. 234).

Kleber refere-se aos trabalhos de Souza, para quem a Educação Musical deve ser compreendida através das teorias do cotidiano: “A perspectiva dessas teorias analisa o sujeito imerso e envolvido numa teia de relações presentes na realidade histórica prenhe de significações culturais” (SOUZA, 2008, p.7).
Desse modo, o ambiente da Educação Musical nos contextos de ONGs pode contribuir para modificar a trajetória dos indivíduos em situação de risco social, tornando-lhes possível o acesso a capitais sócio-econômico-políticos e culturais valorizados pela sociedade. A diversidade cultural deve ser valorizada nestes espaços.

Referências:

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

KEBACH, Patrícia. Musicalização coletiva de adultos: os processos de cooperação nas produções musicais em grupo. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Porto Alegre, 2008.

KLEBER, Magali Oliveira. A prática da Educação Musical em ONGs: dois estudos de caso no contexto urbano brasileiro. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Música. Porto Alegre, 2006.

LIMA, Maria Helena de. Educação musical/educação popular: projeto música e cidadania, uma proposta de movimento. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Porto Alegre, 2002.

SANTOS. Educação musical nos contextos não-formais: um enfoque acerca dos projetos sociais e sua interação na sociedade. XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música (ANPPOM). Anais... Brasília – 2006.

____. Musicalização de crianças e adolescentes: um projeto educativo de transformação social. Dissertação (Mestrado) - Máster of Arts in Music, Campbellsville University, Campbellsville/Recife, 2006ª.

SOUZA, Jusamara (Org.) Aprender e ensinar música no cotidiano. Porto Alegre: Sulina, 2008.

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